A visão panorâmica da trajetória de Núbia Espinheira define a pintora visceralmente expressionista.
Das grandes figuras angustiadas, nos moldes do Expressionismo alemão, evoluiu no sentido do Expressionismo abstrato, com gestual de largas espátulas e generosidade de tintas. Desponta agora com um trabalho novo, sem perda das características que personalizam a artista. Não se afastando da linha abstracionista, a pintora apresenta uma criação de cunho cultural que enfoca etapas do rito de passagem ligado à religião afro.
O alcance estético dessas composições empolga-nos com tal profundidade que nos dispensamos de mais nos deter na questão temática – se bem que seja ela de interesse sempre pulsante na nossa cultura fundamente mesclada de herança africana.
Em vinte e uma telas de grandes dimensões, temos elaboradas, em tinta acrílica, composições abstratas, com inserção de pequenas figuras, as quais – ainda que constituindo a temática eleita – em nenhum momento se impõem como pontos de tensão no conjunto, o que viria a conduzi-lo no rumo do Expressionismo figurativo. A figuração nessas obras interage limitada à função de desenvolver o tema, sem intenção de projetar-se a primeiro plano. Importante observar que o elemento figurativo tem representação definida o bastante para pronto reconhecimento do olho contemplativo, sem as deformações inerentes ao Expressionismo alemão. No entanto – este ponto mais fascinante desta fase de Núbia Espinheira – perfeitamente integrado na organização dos elementos, alcançando plena harmonia na relação figura/fundo, desde que o plano de fundo, conquanto formalmente abstrato, participa da composição com peso igual e valor equivalente ao peso e ao valor de cada figura – tema.
Obras de difícil composição, em cuja feitura um artista inexperiente poderia perder-se.
Ressalte-se ainda a eficiente distribuição dos elementos no campo pictório no avizinhamento de figuras e formas indefinidas, a harmonia cromática, o ritmo constante, tudo a proporcionar uma visão integral de cada trabalho.
Diante desta bela mostra de Núbia Espinheira certificamo-nos mais uma vez da excelência de uma artista que pelo talento e pela segurança no seu fazer, se impõe à crítica e ao público sensível à arte autêntica, essa arte de que os deuses bem dotaram só os seus escolhidos.
Gláucia Lemos

Mítica e mágica
2001
150x140
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