A pintura jamais é passiva, ela fala com o espectador, questiona e responde: conversa.
– Você sempre soube disso, não Núbia?
Esses quadros, esses temas... Uma atmosfera encantada. São seres extraordinários em nossa vida cotidiana.
– O que são? Somos nós? O nosso jeito de estar-no-mundo e de ver-o-mundo?
Os odus, os filhos de Orumilá. Eles estão em toda parte, eles nos lêem, eles revelam a nossa sorte. Os odus conhecem os segredos:
“Um fala do nascimento, outro da morte,
Um fala dos negócios, outro da fartura,
Um fala das guerras, outro das perdas,
Um fala da amizade, outro da traição,
Um fala da família, outro da amizade,
Um fala do destino, outro da sorte”.
Cada odu conhece um segredo diferente.
– Os orixá, Núbia, você nos traz suas imagens, suas ferramentas, seus símbolos. Os odus, cada qual tem um segredo. Os búzios, a linguagem misteriosa de Orumilá aos cuidados da interpretação de Ifá, o seu rosário de contos que as contas contam. Os odus conhecem os segredos.
– Você nos traz os orixá, os odus: o jogo das narrativas de nossas vidas. Nos quadros, como sobre a peneira, os odus nos contam segredos, nos adivinham, falam de fatos, de casos, de acontecimentos, de emoções, de desejos e tudo no tempo que o Tempo guarda e protege.
– O que se vê, Núbia, em cada quadro? O que cada quadro nos diz ao provocar os nossos sentidos?
O olho, a alma e a mão!
Um gesto vago de espanto! A brisa, o vento, o dia, a noite... A chuva, o raio e o trovão.
A alma a guiar o olho e mão na criação do inefável.
As luzes e cores, nos pequenos retângulos como janelas urbanas ao longe, umas sobre as outras na verticalidade dos edifícios, ou como lugares abertos no tempo. – São passagens, Núbia? São brechas?
O mundo é repleto de dobras e fendas permeáveis aos sentidos, às emoções, às forças que equilibram e desequilibram humanos e deuses, criadores e criaturas.
Folhas, ferro, fibras, pano, cores, coisas, frutos, cascas, contas, aves, ar, fogo, terra, água, raio, trovão. A lama criadora, as águas doce e salgada; os caminhos, as encruzilhadas. O mar, sempre vasto o mar. As matas, as árvores, as folhas, as raízes, os frutos.
– E o que mais nos dizem seus quadros, Núbia?
A pintura é como os odus, fala do mundo, ela nos transcende. Diante do quadro, a conversa, o sussurro nas noites silenciosas e opacas, nas noites únicas e intermináveis, no jorro de luzes e cores que brotam dos espaços retangulares que se abrem, – a liberdade de transgredir fronteiras – sempre iluminados, guiados pelo encanto, pelo pasmo e pelo espanto, pois a vida é todo um desassossego, uma inquietação sem fim enquanto sendo, fluindo, vivendo.
Gey Espinheira
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